A diferença está na dose

Na semana passada foi veiculada em algumas mídias uma reportagem intitulada: “Vestígios de agrotóxicos são encontrados em sucos, salgadinhos, pães e biscoitos. Entenda o risco para a saúde.” O texto aborda a possibilidade de aprovação do projeto de lei 6.299/2002 que está em tramitação no Senado.

 

Como diria a chamada do Chapolin Colorado: “Ooh.. E agora, quem poderá nos defender?!”

 

Quando lemos algo assim, costumamos ficar preocupados, para não dizer assustados. Se for sobre algum assunto que não conhecemos a fundo, é ainda mais espantoso.

 

Então, vamos entender um pouco mais sobre o uso e registro de agrotóxicos ou defensivos químicos no Brasil.

 

Para começar, devemos lembrar o porquê do uso desses produtos nas áreas de produção. As plantas são seres vivos, e sofrem ataques de pragas e doenças que prejudicam seu vigor e capacidade produtiva. Para controlar essas enfermidades, são utilizados produtos químicos para combater os agentes patogênicos. É igual a nós humanos quando adoecemos ou somos atacados por insetos, imediatamente recorremos a tratamentos e ao uso de medicamentos, visando restabelecer a saúde.

 

Em ambos os casos, devemos nos submeter aos cuidados de um profissional habilitado e acatar as orientações passadas, seguindo à risca a dosagem e a forma de utilização. Claro que, esse profissional irá mudar caso você seja uma planta ou um “ser humaninho”, e deveremos recorrer a um agrônomo ou a um médico de confiança, respectivamente.

 

Aqui cabe a célebre frase que inspirou nosso título, do médico e físico Paracelso no século XVI: “A diferença entre o remédio e o veneno está na dose”. Válida tanto para o reino vegetal quanto para o animal.

 

Não há intenção em consumir ou aplicar determinado produto em uma dosagem maior do que a recomendada, já que o que buscamos é solucionar o problema e não perder a sua eficácia.

 

Na agricultura, o custo de aplicação é bastante elevado, o que se busca no campo é atrelar máxima eficiência de controle com o menor custo de produção possível. O que implica, usar a dosagem certa, com a forma de aplicação adequada. O desenvolvimento ininterrupto de pesquisas tem permitido cada vez mais assertividade nesses quesitos.

 

Quando um defensivo é aplicado nas áreas de cultivo, esses ingredientes químicos são expostos a uma série de fatores do ambiente que promovem a degradação de suas moléculas, que podem ocorrer por ação do sol (fotólise), ação da água (hidrólise), ação do calor (termólise), ação de enzimas ou catalisadores (catálise), decompostos por alcalinização ou acidificação e metabolizados por microrganismos ou por processos fisiológicos internos da planta (detoxificação).

 

O que torna bastante improvável a ideia de o produto chegar intacto até a mesa do consumidor. Quem analisa isso inclusive é o Ministério da Saúde, que faz o monitoramento da qualidade dos alimentos através do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), coordenado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No último relatório divulgado (2019), a Anvisa informou que somente 0,89% das amostras representavam algum potencial de risco para a saúde. É isso mesmo, foi menos de 1%.

 

A quantidade de registros de novos agrotóxicos também tem gerado calorosos debates. Um ponto interessante é que, de acordo com a legislação brasileira, nenhum produto pode ser registrado caso apresente toxicidade maior do que os existentes no mercado. Os novos produtos para os quais são solicitados registros são moléculas mais modernas, menos tóxicas e mais eficientes, além de uma grande quantidade de produtos fitossanitários, destinados a uso na agricultura orgânica e como manejo biológico na agricultura convencional.

 

A produção agropecuária brasileira passou por um intenso avanço científico, tecnológico e produtivo a partir da década de 70. O que gerou uma enorme quantidade de informações de conhecimento prático, teórico e empírico, que por meio de ferramentas de inteligência como softwares de gestão tem permitido uma extraordinária acurácia na tomada de decisão dentro da porteira, o que seria inimaginável há 52 anos atrás.

 

A busca por sistemas cada vez mais rentáveis e sustentáveis é permanente, sempre mantendo a segurança de todos os envolvidos, da mão marcada de terra no campo até a que segura o garfo na mesa.

Drª Emanuelle Beatriz

Engenheira agrônoma, mestre e doutora em Sistemas Integrados de Produção Animal.
É produtora rural, consultora do Agro, empresária e uma entusiasta da transferência de conhecimento!

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